Kichute amarrado no tornozelo

Quando fiz 13 anos, ganhei da minha mãe um par de kichute. O ano era 1971, e não havia nada mais desejado pelos meninos da época do que os kichutes, um tênis de lona preta com solado de borracha igualmente preto, mas com um detalhe: travas no solado imitando chuteiras e cadarços compridos, para amarrá-los no tornozelo ou cruzar pela sola para não sair dos pés.

O meu foi adquirido no bazar da Dona Julia, em troca de muitas peças de roupas que a minha mãe costurou para pagá-lo. Com um detalhe, o preço variava com o tamanho. Quando abri o pacote quase explodi de contentamento. Não esperei nem um minuto para enfiá-lo nos pés e correr para o campinho de terra preta, e orgulhosamente mostrar para os meus amigos, afinal eu era um dos poucos que ainda não tinha um.

O kichute era muito feio e nada anatômico, aliás muito desconfortável, mas o pior era o chulé que deixava, a ponto de que ao chegar do campinho o tirava do pé no portão de casa e o deixava na varanda, por ordens da minha mãe é claro. Talvez a maior virtude do kichute era a sua durabilidade, um desafio para qualquer calçado de nossa época para enfrentar os nossos pés. O fato é que o kichute durava uma barbaridade.

Montado em um kichute me sentia invencível, inalcançável e com os meus dribles e chutes na bola de capotão no campinho de terra preta, o nosso estádio grandioso e glorioso. Quando chovia o nosso campinho virava um lamaçal e o kichute fazia toda a diferença. Em nossa turma, quem o amarrava passando pela sola era craque, e os pernas de pau amarravam passando pelos tornozelos.

Não era incomum algum moleque torcer o tornozelo, usando kichute, porque as travas além de altas eram pouco anatômicas, em especial para jogar nos nossos campinhos cheios de buracos, mas o duro mesmo era tomar um pisão de kichute, pois lá se ia uma unha.

Quando tínhamos jogos importantes, como os das comemorações cívicas na escola, costumávamos engraxar a parte de borracha para ficar brilhando. Diziam os entendidos, que engraxando também ficava melhor para chutar a bola. Mas o que lembro mesmo é que depois de uma partida embaixo de sol, saia com os “pés cozidos”, cheios de bolhas e claro muito fedidos.

Achava o meu kichute o máximo, mas gostava mesmo era de jogar descalço, sentindo a terra do campinho na sola dos pés. Descalço ou de kichute, estar ali com os amigos, correndo, brincando com a bola surrada nos pés, criando jogadas e dribles, era o melhor momento do dia, e ali vivi as melhores experiencias da minha vida. Afinal as partidas de futebol de meninos eram apenas uma forma gostosa de diversão, nada mais.

Um comentário em “Kichute amarrado no tornozelo

  1. Tive vários desses, clássico que não queriamos tirar do meu pé, principalmente na presença das paquerinhas da escola, para não passar vergonha sevido ao Chulé…Muitos dizem que não é bom ser saudosista, eu penso que só não é bom para aqueles que só lembram das coisas ruins, as boas são eternas e Kichute é uma delas. Lembro inclusive que chegaram a lançar o branco que era para agradar as meninas, e algumas até aderiram a idéia, ou pior jogava dentro da cândida pra desbotar a lona e ficava feio pra caramba.

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