O dia que senti vergonha se ser branco!

Hoje, 20 de novembro, quando se celebra o dia da “Consciência Negra” amanhecemos com a triste e repugnante notícia que mais um preto foi brutalmente assassinado a luz do dia, em um supermercado, por uma razão injustificada e fútil. Apesar de que as circunstâncias desta morte precisam ser investigadas, o fato é que este homem tinha a pele preta.

Nada de anormal, afinal duas em cada três pessoas mortas por policiais militares em serviço na cidade de São Paulo são pardas ou pretas. No Rio de Janeiro esta estatística é ainda superior. Odeio falar de vidas em base a estatísticas, mas no computo geral do país, um preto corre 2,3 vezes mais risco de ser morto por policiais do que uma pessoa branca.

Se a discriminação se concentrasse “apenas” no campo da violência, não seria muito complicado encontrar formas de mitigar a violência contra os pretos através de políticas públicas. No entanto, temos um problema de discriminação racial estrutural no país, que precisa urgentemente ser encarado de frente, pois os pretos são sim marginalizados pela sua cor de pele.

O Brasil tem uma história de democracia baseada na escravidão com um tremendo vale de injustiças, que parece ser quase impossível de ser reduzido. O cidadão que nasce preto, tem menos oportunidade em todos os setores da vida. Ganham menos – mesmo fazendo o mesmo tipo de trabalho –, tem menos acesso à educação e saúde de qualidade, moram em piores condições, e muitos outros aspectos que aprofundam o vale de desigualdade.

O irônico é que apesar de uma vida violentamente extirpada no dia de hoje, em uma das lojas desta grande rede de supermercados, suas ações fecharam com valorização na bolsa de valores! No mundo do capitalismo, parece que as vidas, sejam elas pretas ou brancas, têm pouca ou nenhuma importância. Fica claro, então, as contradições impostas pela sociedade, enquanto alguns poucos celebram, outros muitos choram.

Esperar que as empresas, por iniciativa própria, tomem ações para diminuir o fosso entre brancos e pretos é acreditar no impossível. Apesar de muitas empresas alardearem que estão comprometidas em mudar este panorama, pouco avanço se nota, pois, os cargos mais importantes e os salários mais altos, continuam sendo pagos para os brancos.

Creio que o passo inicial para avançar no sentido diminuir a desigualdade entre pretos e brancos no Brasil seria genuinamente admitir que temos um problema de racismo estrutural, e encarar o problema – que é de todos – com serenidade, buscando alternativas concretas para resolvê-lo.

Por se tratar de um problema cultural, a solução para o racismo não é fácil, e tão pouco rápida. Claramente esta agenda passa por reforma do sistema criminal, mudanças profundas no mercado de trabalho e modelos de governança das empresas, expansão de políticas públicas, entre outras ações. Sinceramente acho que o racismo é um problema que pertence mais aos brancos do que aos pretos.

O que assistimos hoje em horário nobre, em cadeia nacional, foi repugnante e absolutamente inaceitável. Não podemos acreditar que o fato de nascer com a pele preta no Brasil, signifique uma sentença de morte, e que assistimos a morte de mais um João Qualquer. Há que se ter claro que o racismo estrutural e perverso existente no Brasil é um problema coletivo, e como tal, precisa ser encarado coletivamente. Com o meu coração despedaçado hoje senti vergonha de ser branco.

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