Cavalo branco

Era um cavalo branco de cascos prateados que reluzia um brilho azulado nas noites enluaradas. Tinha a crina de pelos largos e irregulares em consonância com o rabo, bem preso em suas ancas rígidas e bem formatadas.

De súbito, aparecia no cair das tardes quentes e trotava círculos regulares e perfeitos em galopes alegres e descompromissados.

Deixava marcas profundas de sua pisada decidida e cadenciada, na terra avermelhada e fina, formando um círculo bem desenhado, que o vento tratava de apagar a cada final de jornada.

Ofegante depois de suas estripulias, mastigava um pouco do capim seco e cortante dos arredores do rancho caiado de branco. Bebia da água densa e esbranquiçada pelo saibro do lago formado na várzea do rio e saia em disparada.

Com a mesma ligeireza, que surgia, desaparecia na poeira avermelhada levantada pelo seu elegante cavalgar. A cena se repetia todos os dias, durante o verão inteiro. Vinha em companhia de outros membros de sua manada. Impossível era não o notar.

Desaparecia no inverno, provavelmente porque migrava para terras mais amenas. Quando voltava parecia mais esbelto, talvez devido à intensa jornada. Olhos brilhantes e sempre atentos denunciavam qualquer movimento suspeito, que a seu comando, fazia a manada disparar.

Pensei em lhe dar um nome, mas desisti porque ao fazer isto estaria tentando me apossar daquele animal. Além de não ter direito, não acreditava que ele pudesse se submeter aos caprichos de qualquer ser humano.

Uma tarde ele não apareceu como de costume. A manada parecia cabisbaixa e silenciosa, com movimentos lentos e descoordenados. O que teria acontecido ao cavalo branco? Um dia mais, uma semana, um mês, o resto do verão e nunca mais o vi.

O pôr do sol passou a me trazer melancolia, porque faz me lembrar daquele animal irradiando alegria, feliz no seu trotar. Passava horas ali sentado na esperança de ainda poder ver o cavalo branco, chegando com o seu cavalgar elegante e ligeiro. Mas ele não veio.

O verão terminou, o inverno chegou, e passou, e o cavalo branco não apareceu. No verão seguinte, quando a manada voltou, nada do cavalo branco. Ouvi rumores que haviam matado o cavalo. Quem o matou foi um índio, ouvi dizer. Mentira, pensei, nenhum índio mata cavalos.

Prefiro pensar que o cavalo branco foi pastar em algum pasto mais verde e alegrar outros olhos.

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