Paranoia racial

Em 2017 peguei um Uber em Atlanta, dirigido por Abraham Lincoln, um preto, forte, falante e cheio de dentes no riso. Achei que ele estava brincando, mas esse era mesmo o seu nome. Papo vai, papo vem, ele me confidenciou que estava trabalhando duro para juntar dinheiro e sair dos Estados Unidos. Quis saber por quê? Ele me respondeu, sem titubear, que não queria ver o filho morto por policiais, em uma das esquinas da cidade.

Achei um exagero.

Depois da morte de George Floyd e outros pretos que morreram, e continuam morrendo todos os dias ao redor do mundo, de forma injusta, imoral e inaceitável, penso que ele não estava tão equivocado como me pareceu ao primeiro instante.

Temos que reconhecer que não somos racialmente alfabetizados, além de nos faltar humildade e honestidade para abordar este tema. Fomos ensinados a pensar em racismo como atos individuais de maldade, mas isso é preconceito. Racismo é algo muito mais complexo, e que merece reflexões muito mais profundas.

Não pode existir comportamento mais “desumano” do que o racismo!

Além de desumano, é covarde, silencioso e praticamente invisível. Provavelmente se você perguntar a 100 pessoas com atitudes racistas, para que expliquem o motivo, vai ficar sem resposta. Não existe nada, mas absolutamente nada, que possa justificar inferiorizar um ser humano por sua cor de pele ou qualquer outro elemento racial.

Quando ouço que fulano de tal é o primeiro negro a fazer algo importante, imediatamente me soa a campainha do pensamento racista. Essa narrativa, aparentemente inocente, mostra claramente o controle branco, como se o negro em questão tivesse que pedir permissão para o branco. Parece que existe um tipo de justiça racial branca, na qual todo negro nasce condenado como ser inferior.  

Em uma estrutura multirracial como a que vivemos, precisamos ter a coragem de discutir raça de forma autêntica e verdadeira. Não existe forma mais genuína de enfrentar o dilema racial do que o diálogo, por isso, o branco precisa escutar honestamente o preto, e vice e versa. Talvez começando por admitir que somos diferentes uns dos outros, que ninguém é igual a ninguém, mas ser diferente não quer dizer inferior.

Hoje, ao pensar, fico curioso em saber se Abraham saiu, com a sua família, dos Estados Unidos. Quanto ao seu nome? Ironicamente, foi uma homenagem feita por seu pai para o homem que aboliu a escravidão nos Estados Unidos.

2 comentários em “Paranoia racial

  1. Adorei! Muito obrigada por compartilhar comigo!
    Torço para que chegue o dia que todos entendam a frase abaixo:
    “Talvez começando por admitir que somos diferentes uns dos outros, que ninguém é igual a ninguém, mas ser diferente não quer dizer inferior.”
    Grande abraço,
    Silvani

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