A casa do meu avô

A casa do meu avô era um templo sagrado, e ele uma entidade. O meu avô era visto como uma referência de honestidade, respeito e autoridade, pela família e vizinhos. A família era grande. Foram 14 filhos, criados com muita luta, mas com muito amor.

O terreno da propriedade era grande, a casa era simples, mas espaçosa e bem construída. Tinha um lindo jardim na frente, com rosas, dálias, cravos e begônias multicoloridas, além dos lírios e jasmins brancos. Nos fundos do terreno, ele construiu uma casinha pequena, mas igualmente confortável, que serviu de primeira morada, para alguns dos meus tios recém-casados. A casa possuía uma garagem enorme, onde aconteciam as reuniões de família.

O meu avô era o fiel da balança para as questões complexas familiares, também era o padrinho de batismo do primeiro filho de cada um dos meus tios. Sua casa sempre cheia, era o ponto de encontro dos meus tios e primos. Raramente passávamos 2 semanas sem visitá-lo. Às vezes chegava e tinha a impressão que estavam brigando; nada disso, apenas uma discussão acalorada entre os meus tios sobre algum ponto de vista controverso.

A família crescia a cada ano, pois novos membros chegavam a todo momento. Primeiro foram os netos, não tardou vieram as namoradas, namorados e bisnetos, e nunca faltou espaço para acomodar todos que chegavam.

Mas, nada me traz mais saudosismo do que as reuniões de Natal.

Geralmente chegávamos na véspera, no final da tarde, e ficávamos reunidos até a tarde do dia 25. Tinha comida para todo e qualquer gosto, regadas a vinho de garrafão, tubaína para a molecada e muita brincadeira, sendo que o auge era o jogo de tômbola que acontecia depois do almoço de Natal. Claro que não podia faltar o amigo secreto, que a cada ano trazia uma inovação.

E a cantoria? A variedade de gêneros era enorme: italianas, religiosas, sertanejas, bossa nova, enfim um pouco de tudo. Ali o que importava não era a afinação, mas a alegria.

Uma das coisas que me chamava atenção é que tanto no Natal como no Ano Novo, os meus tios choravam muito ao se cumprimentar, e eu não entendia a razão. Talvez todos ali pressentiam que, em algum momento, aquilo tudo acabaria.

Hoje penso como que o meu avô conseguiu manter os filhos, netos e bisnetos aglutinados como uma família de verdade. Não era apenas no Natal ou Réveillon que nos reuníamos. Muitos aniversários, batizados e bodas também foram ali celebrados. Sem contar as macarronadas de domingo, regadas a tubaína e muita conversa. Nas tardes de domingo, a minha avó sempre deixava um bolo de fubá e uma garrafa térmica de café sobre a mesa, pois sabia que alguém passaria para um dedo de prosa.

Seria um sonho passar uma tarde naquela casa antiga e encontrar o meu avô sentado em sua cadeira de balanço à espera do primeiro que chegasse para acender o seu cigarro de palha e dividir a sua sabedoria e generosidade.

Infelizmente isso tudo não existe mais. Depois que ele passou, o mato cresceu e matou o seu jardim, ninguém mais se reuniu ali ou em outro lugar. A casa foi vendida, tombada e deu lugar a um prédio. Tudo que sobrou do meu avô foram lindas lembranças e um relógio de bolso que ele me deu.

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