Devaneio

Do nada, alguma coisa mágica, te fez surgir. Nunca a havia visto, mas a sua beleza contrastava com tudo ao seu redor, e a tornava ainda mais bela. Seu olhar inconsequente e malicioso me embriagou. Ao me acercar não pude resistir e, sem consultar, a beijei com paixão. Aquele beijo me provocou uma orgia de pensamentos. Zonzo me perdi em sensações, hálito, sussurros e saliva; me encontrei para, em seguida, me perder de novo.

Viajei a outros planetas, pisei em pântanos, cruzei rios, e desertos de areias incandescentes. Senti o cheiro ácido da carne queimada sem saber se era a minha própria carne que torrava. Sem me abalar, escutei o som penetrante dos clarins do portal do inferno. No final me deitei sobre uma cama de serpentes com plumas azuis, olhos vermelhos e com olor ardente de menta.

Dormi um sono inconsequente e acordei em um lugar desconhecido. Era um deserto árido e quente. Senti muita sede e tive a sensação que andava sobre quatro patas. Encontrei um lago e me fartei de sua água esverdeada, densa e agridoce. Levantei-me e caminhei incansavelmente por horas a fio, deixando o deserto para trás. Nunca estive tão perto de chegar a lugar algum, então me dei conta que meus pés não tocavam no chão e meus passos tinham a dimensão de um quilômetro.

Vagava sem direção. Meus passos se intensificaram e em pouco mais de 10 minutos havia percorrido toda cidade. Não encontrei viva alma, mas escutava vozes e ranger de dentes. Andei por dias até encontrar um jardim maravilhosamente coberto de verde, mas as flores eram negras e cheiravam à carniça. Quilômetros adiante encontrei um cemitério suntuoso, cujos túmulos eram cobertos de joias, então pude ver os mortos se levantarem e saírem, todos na mesma direção. Vi uma multidão de mortos felizes celebrando algo que não pude entender.

Depois ao som de arpas e canções suaves com vozes femininas todos se voltaram para o leste onde um enorme astro avermelhado parecia cair no horizonte. Então a luz do dia se apagou abruptamente e se fez noite. Na penumbra entrei em pânico e parecia me faltar o ar, e assim permaneci por muito tempo.

Ouvi murmúrios e lamentações sem saber de onde vinham, permaneci em silêncio apenas escutando os lamentos, incluindo o meu. Um silêncio profundo se fez, até cair uma chuva branda, morna e doce, que encharcou a minha roupa e cabelos, me deixando em estado de profunda tranquilidade.

Meus pés flutuavam novamente e a aurora rompeu um novo dia intenso e com muita luz, então despertei com a sensação de ter renascido, foi quando me dei conta que estava só.

Teria sido um sonho, ou realmente você existe?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.