O tio Toni

Descobri o que meu tio Toni, na verdade se chamava Artur! Isso mesmo durante toda vida este meu tio foi chamado de Toni, mas o seu nome verdadeiro era Artur. Descobrimos isso após a sua morte, quando os meus tios insistiam em sepultar o Antônio, até que se deram conta que nos documentos constava Artur.

Sendo o último de uma safra de 14 filhos, e nascido no dia de Santo Antônio a minha avó ordenou ao meu avô que ele se chamaria Antônio, mas o meu avô tinha outros planos e batizou o moleque de Artur. Ocorre que ter um filho chamado Artur era o sonho do meu avô, que foi sendo postergado ao largo dos anos, e como ele sabia que este provavelmente seria seu último filho, não teve dúvidas cravou Artur na certidão de nascimento do menino.

A minha avó, que jamais aceitou o fato, determinou que o seu nome era Antônio, mais que isso o chamaria de Toni, e não se falou mais no assunto. Então nunca soubemos que o Toni havia nascido Artur, pelo menos pelo lado do meu avô. Francamente a minha avó tinha razão, ele nunca teve cara de Artur. Mas esta não foi a única proeza desta família de italianos malucos.

O tio Toni foi seminarista, provavelmente por desejo da minha avó, e não se sabe porque não foi ordenado, o que não o impedia de rezar efusivamente em latim. Também não casou.

As lembranças mais marcantes que tenho do tio Toni são dos Natais. Durante o ano não me lembro de tê-lo visto beber, no entanto, entre a noite do dia 24 e o dia 25 ele tomava um garrafão de vinho, isso mesmo aqueles garrafões de cinco litros de vinho vagabundo com embalagem de vime. Ele o colocava nos ombros, enchia uma pequena caneca esmaltada, e a tomava as goladas cada vez menos intensas, à medida que o tempo passava.

O tio Toni tinha uma vasta barba branca e usava somente camisas brancas, de mangas longas, e abotoadas no colarinho. Lá pelas tantas, o vinho parecia não descer mais e escorria pela barba, formando uma roda vermelha na camisa branca, até que ele capotava e dormia por dois dias.

Outra das esquisitices do tio Toni foi que ele ficou sem falar por cinco anos. Dá para imaginar ficar sem falar por cinco anos? Pois o tio Toni conseguiu, mas obviamente não ficou sem tomar o seu garrafão de vinho no Natal.

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