Aberrações

Peixes pastando em rios amarelos, profundos e corredios, em planetas recobertos de ferrugem. Anjos negros sentados em bancos de gelo, tocando canções fúnebres em gaitas rudes. Meninos recém-nascidos, velhos de alma, moribundos; choram famintos abandonados nos jardins dominados pelo verde musgo do desleixo. Mulheres vestidas de armadura, cujo elmo não permite mostrar esgares de medo e repulsa pela guerra dos homens. Jardins de flores canibais, mascando a carne viva dos desesperados que ali passam. Borboletas com asas inoxidáveis pousadas em flores de lata, em busca do néctar improvável e impossível. Vacas malhadas, preparadas para a ordenha, trepadas em arvores de fruto amargo de cor carmim e olor acre. Corvos brancos na espreita da carne podre, dos feios e desajustados que vagam pelos becos escuros. As mãos amarradas, tremulas e sujas de terra, tocam tristes canções em harpas desafinadas. Vozes que se perdem em frágeis poemas incolores; coro embriagado de uníssona voz. Calejados pés pedalando entre montanhas e vales a procura de um lugar onde se possa ver a luz, enxergar a cor e afastar a dor. Centenas de pássaros de ferro, pousados nos telhados dos aflitos, entoando um taciturno canto. Uma serpente repousa no galho mais alto do angico, com suas asas de pumas brancas, abertas e prontas para alçar voo. Um velho maltrapilho, de barba branca, cava a sepultura do filho moribundo que lentamente apodrece em seu leito de morte, no casebre de paredes sujas.

Vestindo roupas de linho branco e chapéu panamá, fumo mentiras no cachimbo da paz dos guerreiros enfurecidos, e crio ideais impossíveis. Discurso na tribuna do palácio de pedras brancas para uma legião de homens enfurecidos e maltratados. Sirvo absinto misturado com cicuta, em cálices de prata, para os arrogantes generais, que vestem impecáveis fardas brancas, recobertas por medalhas douradas. Como do barro vermelho e denso da estrada, que serve para fabricar homens sem alegria, e de alma corroída, mas que sempre cheira a lírio. Me engasgo com a lama densa e pegajosa que trava na garganta, acordo em pânico, quase sem poder respirar. Me dou conta que estava sonhando um mundo imaginário e respiro aliviado, mas sei que estes demônios continuarão vivos em minha consciência, e certamente os sonharei novamente.

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