A cultura do medo (originalmente publicado em 18/06/2011)

Algumas pessoas estão descobrindo que sofrem de FOMO, que pode ser classificada como uma patologia dos tempos atuais.  FOMO significa medo de perder, ou “fear of missing out”, como foi cunhado originalmente em inglês, este acrônimo. Esta patologia se manifesta nas mais diversas vertentes da vida, desde aquele que sofre porque não pôde assistir a um show até aquele que gostaria de fazer dois ou três cursos de pós-graduação ao mesmo tempo.

A cena pode ser hipoteticamente descrita da seguinte maneira. No sábado à tarde do feriado prolongado que você não viajou, depois de um sanduíche engolido na lanchonete da esquina, você volta para casa e sem ter o que fazer resolve entrar no Facebook. Você se depara com antigos colegas de faculdade graduando-se em MBAs, fotos de colegas desfrutando férias ensolaradas na Nova Zelândia, ou de gente do seu trabalho relatando que o feriado prolongado está sensacional em Fernando de Noronha. Então você olha ao redor de seu minúsculo e desordenado apartamento e conclui que a sua vida parece um lixo pois você não está vivendo nada disto.

Estar constantemente preocupado com o que outras pessoas estão fazendo e quem está se divertindo mais do que você ou se preocupar que as pessoas estão fazendo planos sem você é um claro sintoma de FOMO. Não tenho dúvida que o grande responsável por isso é a necessidade de se mostrar e o caminho mais curto são as redes sociais. Muitas pessoas relatam que constantemente acessam ao Facebook, Tweeter ou qualquer outra rede social, várias vezes ao dia, para ver o que as pessoas escrevendo nos murais uns dos outros, falando sobre algo divertido que eles fizeram durante as férias ou coisas parecidas, e que sofrem com o fato de que não estavam lá. A vantagem de estar lá não é necessariamente se divertir, mas que gostaria de ser incluído.

Esta patologia vem ganhando contornos de dramaticidade a ponto de que algumas pessoas relatam que temem o fim de semana porque sabem que especialmente nas noites de sexta e sábado, o mundo inteiro vai estar se divertindo em festas incríveis enquanto elas vão estar em casa de pijama assistindo um filme antigo na televisão com uma cesta de pipocas no colo. Mas na vida real não pode ser assim.

Alguma ansiedade é perfeitamente normal, mas exagero é patológico. Há muita coisa acontecendo na vida das pessoas além do se publica no Facebook.  Tomo aqui o Facebook como a representação das redes sociais, já que esta é a versão mais difundida. Muitos podem estar vivendo um momento pior do que você, mas simplesmente não falam sobre isso. A verdade é que as pessoas estão menos inclinadas a postar atualizações revelando o tédio que todos nós experimentamos.

O Facebook pertence a um mundo irreal onde tudo é possível. O perfil pode ser preenchido com pessoas superficiais, até mesmo fictícias. Sequer podemos garantir que aquela amiga que diz morar em Londres existe. Alguém pode simplesmente criar um personagem fictício para se divertir. Não podemos esquecer que o Facebook é uma edição representativa da vida de alguém, mas quase sempre descolada da realidade.  Além disso, há que se considerar o fato de que as pessoas tendem a exagerar e fazer com que as coisas pareçam muito mais interessantes do que verdadeiramente são.

O Facebook converteu-se em uma competição difícil, mesmo para as pessoas mais populares, porque não é fácil estar em evidencia o tempo todo. Creio que o Facebook foi originalmente concebido para ser apenas um diretório para procurar velhos amigos ou facilitar o contato com os novos, mas se tornou, para muitos, como uma reunião no pátio do inferno. É como um grande concurso de popularidade onde se julga pela quantidade de amigos ou de comentários feitos em base às suas fotografias

A realidade é que as mídias sociais se transformaram no principal veículo para disseminar conquistas, aventuras e relacionamentos que, muitas vezes não estão sendo vividas. Até pouco tempo atrás se ouvia falar sobre férias incríveis ou de uma relação nova e excitante de um amigo, mas isto acontecia espontaneamente e em uma mesa de bar, agora estamos ouvindo frequentemente e de muita gente ao mesmo tempo. O que vejo como ponto mais grave é que na vida real as relações deixaram de ter profundidade, talvez porque o mundo passa por uma grande transformação no sistema de valores…

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