Por uma vida frugal

Tenho me perguntado muito sobre os limites impostos pela sociedade capitalista, especialmente os de tendência neoliberal, que nos últimos tempos dominaram a sociedade de maneira obsessiva e descontrolada. Tudo tem que ser feito mais rápido, melhor e mais barato, mas a pergunta que não quer calar é: onde está o limite?

Momentos como este, em que mais uma crise, desta vez financeira, alastrou-se mundialmente por todos os mercados, parece ser muito favorável parar e repensar a vida de maneira profunda e sem as naturais barreiras de pensamento.

As empresas e as entidades financeiras têm buscado sistematicamente o crescimento perpétuo. Como bem sabemos, em qualquer sistema econômico social, sempre existem limites, e como a busca dentro dos mercados existentes exauriu-se, a saída foi criar mercados inexistentes. As consequências todos conhecem bem, especialmente os que possuem menos recursos, que são os primeiros que sofrem.

Recorro a Lord Keynes que dizia que a dificuldade não é exatamente conceber novas idéias, mas saber como livrar-se das velhas, para dizer que repensar a maneira como estamos vivendo não será nada fácil, especialmente porque isto significa uma profunda mudança de paradigmas. Você já se perguntou qual é a sua razão de viver? Se ainda não o fez, te encorajo a fazê-lo o mais rápido que possa. Se o fez, parabéns o primeiro passo já foi dado, mas isto não é tudo, é importante também responder esta pergunta com atitudes.

A crise financeira é apenas uma das muitas crises que estamos vivendo. Há que se notar que estamos padecendo de uma crise ecológica (climática, energética, devastação do meio ambiente, dentre outros); de uma crise social com a crescente desigualdade entre povos e aumento da violência; e de uma crise cultural com a perda de referencia e identidade, além da inversão de valores. Por isso, não se pode avaliar a crise financeira de forma isolada, mas como consequência de um problema estrutural muito mais abrangente, que é busca insana e gananciosa por mais e mais.

Não existe produção, sem destruição, portanto, se houvesse uma distribuição mais equitativa da riqueza gerada, certamente a necessidade de destruir mais e mais para produzir seria dramaticamente reduzida. Como comentou o presidente boliviano Evo Morales, durante a assembléia geral da ONU em 2007: “Não é possível que três famílias tenham renda superior a soma do PIB dos 48 países mais pobres”.

Em um mundo de recursos finitos as coisas não podem crescer de maneira indefinida, por isso, é necessário recuperar a sobriedade e reconhecer que somos todos hospedes neste mesmo planeta e que o crescimento desenfreado é a única condição para o desenvolvimento humano. Da maneira como vamos, em muito pouco tempo o meio ambiente estará destruído, e como a natureza é sábia, se encarregará de reciclá-la atuando como predadora do próprio homem. Afinal a terra já atingiu o caos mais de uma vez e se regenerou de maneira primorosa.

Uma possibilidade poderia ser aplicar a filosofia do decrescimento, que prega que devemos trabalhar menos para viver melhor. A proposta é mudar a atual organização de produção e repartir melhor o trabalho, de maneira que mais gente tenha trabalho e como consequência ocorrerá melhor distribuição de renda. Um tanto quanto utópica, na atual conjuntura, esta nova forma de viver tem alguns pontos muito interessantes que nos ajudam a refletir sobre o futuro da humanidade de maneira mais justa e igualitária.

Criada pelo francês Serge Latouche, a filosofia do decrescimento sustentado, tem como foco principal a diminuição da devastação dos recursos naturais do planeta. Não há duvidas que o professor Latouche tenha razão quando observa que estamos consumindo rápido demais os recursos do planeta, basta ver o que aconteceu nos últimos 20 ou 30 anos no meio ambiente. O maior objetivo de Latouche é fazer as pessoas pensarem, que o crescimento pelo crescimento leva unicamente a destruição do planeta.

A proposta então é um ciclo virtuoso do decrescimento, compreendido por: reavaliar, (re)conceituar, reestruturar, redistribuir, (re)localizar, reutilizar e reciclar. Na verdade, o início do processo se dá através da reavaliação e da (re)conceptualização, que na prática significa mudar a maneira de pensar, ou seja, uma profunda revolução cultural.

A base da filosofia do decrescimento é trabalhar menos para viver melhor, ou seja, o foco deixa de ser o poder aquisitivo – dado que impõe ao homem a única dimensão de consumidor – e passa a ser a busca do poder de viver. Reduzindo a quantidade de trabalho, por si só, permitirá levar uma vida mais equilibrada e mais humanitária.

Livre de paixões vejo como muito difícil uma mudança profunda como esta, em especial quando um terço da população mundial está completamente à margem do consumo, dado que 84% da população mundial sobrevive com 14% dos bens e produtos disponíveis. De qualquer maneira como propõe a filosofia do decrescimento o primeiro passo é reavaliar, e é justamente isto que proponho a todos os hóspedes deste planeta, especialmente os de elevada consciência.

Trata-se de devolver ao homem o papel de protagonista, permitindo a restauração de um espírito critico frente ao modelo dominante do “cada vez mais”, e abrir um debate sobre a nossa forma de viver. Talvez seja uma utopia, mas não um sonho incoerente, mas pensar em substituir o crescimento estritamente econômico por um crescimento humano me parece mais do que razoável.

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